Quando uma tragédia consegue unir uma sociedade (e faltam 10 semanas)

Esta crónica começa com uma nota pessoal

Quando estava em Connecticut, havia um Português, com quem tinha passado o processo de selecção em Portugal para irmos para os Estados Unidos e por causa disso tínhamos desenvolvido amizade, que estava a tirar o Doutoramento em Literatura Inglesa na Universidade da Carolina do Sul em Columbia, SC.

Num das paragens para o Dia de Acção de Graças, resolvi meter-me num avião e ir passar uns dias com esse meu amigo (Miguel Carrasqueira de seu nome), não só para fazer companhia, mas também para aproveitar e conhecer o Estado do Palmeto (de dizer que uma das visitas que fiz, foi a Charleston, Carolina do Norte para ver o…estádio dos Panthers).

Na altura fiquei muito (negativamente) impressionado com o display de bandeiras da Confederação que havia, literalmente, em todo o lado em Columbia.

flgsNessa altura o Miguel explicou-me que o Estado estava a passar por uma situação muito embaraçosa, onde os Senadores negros do Estado tinham conseguido passar uma resolução para ser retirada a bandeira da Confederação do topo do edifício que serve para o governo do Estado. Só que a maioria branca, resolvendo “ensinar uma lição” aos colegas na minoria, depois de aceitar a resolução, apresentou imediatamente outra que incluía a construção e um memorial para a Confederação com um poste para colocar a bandeira…na praça à entrada do edifício.

conf flag

Quem segue minimamente o que se passa nos Estados Unidos sabe o que aconteceu em Charleston onde Dylann Roof, um supremacista branco matou nove pessoas negras numa igreja.

Para além da dor e confusão que algo como isto provoca, e muito para além da discussão que era imperativo ter nos Estados Unidos sobre a facilidade em ter uma arma e causar uma tragédia destas, há a inegável vertente racista que Roof demonstrou nos seus atos e manifesto.

Assim, do muito pouco que pode ser considerado positivo no que aconteceu, é um movimento “de fundo” onde, parece, que a sociedade Americana parece querer forçar uma mudança, pelo menos, em demonstrações de símbolos de uma passado divisório e racista do passado por parte de instituições governamentais.

A juntar a isso, alguns dos jogadores na NFL como Byron Maxwell dos Eagles, Benjamin Watson dos Saints, e Calvin Johnson dos Lions, e agora a organização dos Panthers, juntaram-se ao grupo de pessoas e instituições que pedem a retirada da bandeira da Confederação dos passos do edifício governamental em Carolina do Sul.

E já no início da semana, Jerry Richardson, o dono da equipa, tinha doado 100.000 dólares para o Mother Emanuel Hope Fund, para ajudar a família das pessoas que perderam a sua vida neste horrível ataque.

richardson

Another one bites the dust??? (e faltam 11 semanas)

Depois de em Março termos visto Chris Borland a deixar a carreira de jogador profissional, por uma questão de segurança e de evitar algum problema de saúde grave por jogar futebol Americano, agora é a vez de termos outro 49er que resolve interromper a carreira.

Neste caso, Anthony Davis, com 25 anos de idade e a jogar na posição de linebacker fez saber que não vai jogar no próximo ano de forma poder recuperar fisicamente.

davis“Depois de alguns anos de reflexão, decidi que o melhor para mim será tirar um ano de jogar na NFL. Isso poderá me dar oportunidade para o meu corpo e mente de recuperar.”

Davis engrossa assim a lista de jogadores que estão a afastar-se do jogo (mesmo que temporariamente) com receios relativos a questão de saúde.

E não é por acaso. Cada vez há mais investigação a mostrar que jogadores de futebol Americano estão risco de desenvolver complicações sérias. Um estudo recente mostra que os ex-jogadores da NFL têm quatro vezes mais risco de desenvolver Alzheimers e Esclerose Amiotrófica Lateral, assim como desenvolver depressão mais facilmente devido a trauma cerebral.

Este é. E fazendo eco do que diz o nosso amigo Gregg Easterbrook, um “perigo real” para o desporto que gostamos. Cada vez mais este tipo de decisão por parte dos jogadores causa uma cultura que se estende aos jogadores mais jovens e aos seus guardiões. Podem imaginar cada vez mais pais a verem estas notícias da NFL  e a pensar se é uma boa ideia ter um filho a ficar também ele vulnerável a tantos problemas de saúde.

Haverá sempre quem queira (e/ou precise) de jogar. Mas a NFL vai continuar a ter de mudar o seu modelo desportivo.

A pensar em cheerleaders (e faltam 12 semana)

cowboys-cheerleaders 1Não, não sejam maldosos.

O artigo não é sobre o quão bonitas, elegantes e sexy as cheerleaders são….apesar de serem essas coisas todas.

Neste caso é mesmo sobre as meninas que dão um colorido especial ao futebol Americano profissional serem também elas tratadas como… profissionais.

Uma proposta de Lei apresentada na legislatura do Estado de Nova Iorque obrigaria que as equipas de NY proporcionem condições de trabalho para as cheerleaders que incluem pagamento (pelo menos ordenado minímo) e protecções básicas (inclui seguro de saúde e condições para os treinos).

Esta proposta vai no mesmo sentido que o acordo em tribunal que foi conseguido pelas cheerleaders dos Bills (as Jills) que acusaram a organização de de uma forma continuada ignorar o acordo de haver uma pagamento minimo pela contribuição das cheerleaders.

Feitas as contas às horas de treinos, eventos públicos e privados, onde as cheerleaders dos Bills chegavam a acumular 840 horas de trabalho não pago por ano.

Esta proposta não é original nos USA, uma vez que no Estado da Califórnia igual proposta de Lei já passou pela casa dos Representantes e vai ser apreciada pelo Senado este Junho. De lembrar que o Estado da Califórnia tem maioria Democrata no Senado e o Governador também é Democrata, o que significa que a probabilildade é eláevada de ser Lei. E como sabemos só o Estado da Califórnia tem três organizações da NFL

Agora, ainda podemos apreciar mais a beleza e mestria das cheerleaders, sabendo que há quem esteja a trabalhar para as meninas terem ainda mais benefícios e direitos.

NFC Championship: Minnesota Vikings v New Orleans Saints

Como “extorquir” ainda um pouco mais de dinheiro (e faltam 13 semanas)

Com as repetidas conversas que Los Angeles, depois de a última equipa lá ter jogado em 1994, está interessada em ter uma equipa da NFL, está a haver um…vamos lhe dizer, efeito colateral, que mais uma vez coloca a Liga numa má posição.

Em poucos meses, tivemos um projeto feito à pressa e sem explicações de maior para ser construído um novo estádio em St Louis, San Diego já apresentou também um projeto para a construção de um estádio com o preço de 1.1 biliões de dólares, e os Raiders estão também desesperadamente a tentar encontrar uma solução para manter a equipa em Oakland.

chargersComo em quase tudo na NFL, o que está em questão é dinheiro. É difícil imaginar que o segundo mercado Americano a nível de audiências não trouxesse para a Liga mais uns quantos mil milhões de dólares. Isso ser uma prioridade para uma organização que já consegue amealhar cerca de 9 biliões em lucro anualmente, é uma conversa mais de índole socio-económico.

Mas que se calhar vale a pena ter. Ora vejamos.

Com estes projetos “tirados a ferro” por parte tanto de San Diego como de St Louis, e com a necessidade de ter fontes financeiras que sejam garantidas, qual é aquela que mais fácil pode ser alcançada. O dinheiro dos contribuintes. No caso de San Diego está previsto que seja na casa dos 647 milhões e de St Louis de 400 milhões.nflow

São cada vez mais as vozes que se levantam contra este obsceno uso de dinheiros públicos para suportar donos bilionários e os seus brinquedos. Desde os já mais “veteranos” como o caso do “nosso amigo” Greeg Easterbrook, como agora o muito influente Keith Olbermann, e muitos mais pelo meio.

Numa América que mudou de uma forma notável nos últimos 25 anos, parece que um dos últimos modelos de capitalismo (selvagem) numa matriz socialista, incrivelmente, continua a ser a NFL.

Vamos ver por quanto mais tempo.