Desmistificar Tim Tebow

Antes de mais que fique bem claro que eu não tenho nada contra o rapaz, nem contra QB’s que correm com a bola, nem contra o seu amor por Jesus Cristo. Apenas vos quero apresentar factos.

O que dizer de um QB, cujo seu próprio General Manager (o lendário QB John Elway) diz que Tim não é o QB de futuro da equipa, e que precisa de melhorar em muitos aspectos…

Até Jake Plummer, antigo QB dos Denver Broncos, que durante a sua estadia na Mile High City atingiu 39 vitórias contra 15 derrotas (nada mau), diz que já está farto de ouvir Tim Tebow professar o seu amor por Cristo, de cada vez que consegue fazer alguma coisa bem…

Mas eu não estou aqui para falar de gostos religiosos (apesar de achar que não se deve misturar desporto com religião… vá, fica aqui só esta: quer dizer que Tim Tebow é o único merecedor da ajuda divina? Coitados dos 50 e tal jogadores da outra equipa que fizeram tanto mal a Deus que nem mereceram uma ajudinha para ganhar…)

E para que conste, eu não sou nada contra QB’s que correm com a bola, aliás comecei a gostar de futebol americano a ver o filme Any Given Sunday, em que a estrela do filme, Willie Beamen era um perigoso QB devido às suas capacidades de “scrambler”. E quando jogo futebol americano adoro fazer passes “on the move”, aliás é uma qualidade que aprecio em QB’s como Aaron Rodgers ou Ben Roethlisberger. Portanto não é por aí que vão dizer que eu sou Anti-Tebow.

Aliás, admiro a mentalidade ganhadora que Tebow traz do college, mas neste momento penso que vivemos um “hype” em seu torno, que mais cedo ou mais tarde vai terminar, quando a NFL em geral fizer o “catch up”, que é inevitável que aconteça sempre que surge uma nova “trend”. Alguém ainda se lembra do “Wildcat”? Pois é, à uns anos atrás, era o grito da moda, o nova jogada infalível. Toda a NFL se iria render ao Wilcat! Hoje em dia apenas uma ou duas equipas usam esse tipo de jogada e apenas esporadicamente… Penso que acontecerá o mesmo com Tebow.

Mas analisemos os factos.

Desde que Tim Tebow se tornou titular dos Denver Broncos, eles venceram 5 jogos e perderam 1. Analisemos então a prestação de Tim Tebow ao longo desses jogos:

@ Miami Dolphins: 13 passes completos em 27 (48%), 161 jardas, 2 TD’s, 8 Primeiros Downs em passe, 25% de eficácia em 3º down, 9 corridas para 59 jardas, 3 primeiros downs em corrida – 14 pontos em 18

vs Detroit Lions: 18 passes completos em 39 (46%), 172 jardas, 1 TD, 1 INT, 9 Primeiros Downs em passe, 0% de eficácia em 3º down, 10 corridas para 63 jardas, 1 Fumble, 4 primeiros downs em corrida – 7 pontos em 10

@ Oakland Raiders: 10 passes completos em 21 (48%), 124 jardas, 2 TD’s, 4 Primeiros Downs em passe, 25% de eficácia em 3º down, 13 corridas para 118 jardas, 4 primeiros downs em corrida – 14 pontos em 38

@ Kansas City Chiefs: 2 passes completos em 8 (25%), 69 jardas, 1 TD, 2 Primeiros Downs em passe, 35% de eficácia em 3º down, 9 corridas para 43 jardas, 1 TD, 3 primeiros downs em corrida – 14 pontos em 17

vs New York Jets: 9 passes completos em 20 (45%), 104 jardas, 4 Primeiros Downs em passe, 23% de eficácia em 3º down, 8 corridas para 68 jardas, 1 TD,  4 primeiros downs em corrida – 7 pontos em 17

@ San Diego Chargers: 9 passes completos em 18 (48%), 143 jardas, 1 TD, 7 Primeiros Downs em passe, 31% de eficácia em 3º down, 22 corridas para 67 jardas, 3 primeiros downs em corrida  – 7 pontos em 16

Daqui é possível ver que as estatisticas de Tim Tebow não variam muito entre jogos, até mesmo naqueles que perdeu, ou naqueles que ganhou por muitos pontos.

Vejamos agora como se portou o resto do ataque em corrida:

@ Miami Dolphins: 31 corridas para 120 jardas, média de 3,87 jardas por corrida, 1 Fumble, 6 primeiros downs – 0 pontos em 18

vs Detroit Lions: 20 corridas para 132 jardas, média de 6,60 jardas por corrida, 1 Fumble, 5 primeiros downs – 0 pontos em 10

@ Oakland Raiders: 26 corridas para 181 jardas, média de 6,96 jardas por corrida, 2 TD’s, 8 primeiros downs – 14 pontos em 38

@ Kansas City Chiefs: 46 corridas para 201 jardas, média de 4,37 jardas por corrida, 10 primeiros downs – 0 pontos em 17

vs New York Jets: 23 corridas para 59 jardas, média de 2,56 jardas por corrida, 1 Fumble, 3 primeiros downs – 0 pontos em 17

@ San Diego Chargers: 29 corridas para 141 jardas, média de 4,86 jardas por corrida, 7 primeiros downs – 0 pontos em 16

À excepção do jogo contra os Jets, podemos ver que o ataque em corrida tem consistentemente produzido números mais do que medianos, com bom número de jardas ganhas e excelentes médias de jardas por corrida, com a conquista da maioria dos primeiros downs, o que na minha opinião facilita o trabalho do QB… a não ser no jogo contra os Jets, mas aí entra a defesa…

Analisemos então a defesa dos Denver Broncos:

@ Miami Dolphins: 267 jardas permitidas, 1 TD em passe, 15 pontos, 15 primeiros downs, 4 sacks, 1 Fumble forçado, 1 Fumble recuperado, 66% eficácia na redzone, 79% eficácia em 3º down

vs Detroit Lions: 376 jardas permitidas, 3 TD’s em passe, 1 TD em corrida, 31 pontos, 21 primeiros downs, 2 sacks, 0% eficácia na redzone, 66% eficácia em 3º down

@ Oakland Raiders: 416 jardas permitidas, 3 TD’s em passe, 24 pontos, 18 primeiros downs, 3 INT’s, 2 sacks, 1 Fumble forçado, 33% eficácia na redzone, 66% eficácia em 3º down

@ Kansas City Chiefs: 258 jardas permitidas, 1 TD em passe, 10 pontos, 14 primeiros downs, 4 sacks, 1 Fumble forçado, 50% eficácia na redzone, 82% eficácia em 3º down

vs New York Jets: 318 jardas permitidas, 0 TD’s, 6 pontos, 19 primeiros downs, 3 sacks, 1 INT, 1 Fumble forçado, 1 Fumble recuperado, 50% eficácia na redzone, 79% eficácia em 3º down

@ San Diego Chargers: 344 jardas permitidas, 1  TD em passe, 13 pontos, 19 primeiros downs, 3 sacks, 50% eficácia na redzone, 65% eficácia em 3º down

O que dizer de uma defesa que nos últimos 3 jogos apenas consentiu uma média de 277 jardas por jogo aos adversários e uma média de 9,6 pontos por jogo? Exceptuando a derrota contra os Lions, em que os números foram fracos, esta defesa tem estado a colocar muita pressão nos adversários, senão vejam-se os 16 sacks, 4 Fumbles forçados e 4 INT’s em 5 jogos. E como se pode ver, tem sido muito dificil aos adversários conseguir converter 3ºs downs contra esta defesa, tal como tem sido muito dificil conseguirem converter as presenças na red zone em pontos. Se isto não é a definição do melhor amigo do QB, não sei o que é!

Como se já não bastasse a ajuda que a sua defesa lhe dá, os coordenadores das defesas adversárias também lhe dão. Senão vejamos o caso de Rex Ryan, treinador principal dos Jets, que é quem decide as jogadas executadas pela defesa. No jogo contra os Broncos, os Jets estavam à frente no marcador sem terem permitido grande ganho de jardas a Tebow. No último drive dos Broncos, Tebow começou finalmente a ganhar jardas no ataque e Rex Ryan “indignado” por estar a consentir tantas jardas a Tebow, chamou uma jogada de raiva, um “all out blitz”, pensando que a sua defesa chegaria ao QB dos Broncos e o derrubaria para perda de jardas. Só que as decisões de raiva, têm os seus inconvenientes, por que não são bem pesados os prós e contras, isto porque não é necessário colocar pressão adicional em Tim Tebow para diminuir a percentagem de sucesso do passe. Resultado: ao sentir-se pressionado, Tim Tebow fez aquilo que todos os QB’s scramblers fazem, correu para fora do pocket e para longe da pressão, marcando um touchdown. Foi uma jogada que marcou o jogo,pois os Jets não a tinham feito até aí e se tivessem continuado sem a fazer, provavelmente os Broncos teriam de se contentar com um field goal, que não seria suficiente para ganhar o jogo. Mais uma vez, dar também o mérito à defesa que soube fechar o jogo, depois dos Broncos terem passado para a frente no marcador.

É também digno de salientar o trabalho da linha ofensiva dos Broncos, que facilita e de que maneira o trabalho dos running backs e de Tim Tebow. É fácil e muito divertido correr com a bola quando toda a defesa está a ser afastada da dita bola pelos excelentes bloqueios da linha ofensiva. Para isto não vos posso apresentar números nem estatísticas, mas podem ver as jogadas de ataque dos Denver Broncos e facilmente o comprovam.

Apresentados os factos, é possível ver que Tim Tebow é o elemento constante ao longo destes jogos, e que é toda a equipa que faz aparecer as vitórias e não apenas ele, aliás o Futebol Americano é conhecido por ser o verdadeiro desporto em equipa e não de individualidades. Passemos agora à parte mais subjectiva…

Tudo isto dito, chego à conclusão, que vos queria apresentar, e que não é mais do que a seguinte: Tebow não é nenhum super homem, nem um salvador, nem nenhum pioneiro de uma nova maneira de jogar a QB. Muitos outros antes dele já o fizeram, e muitos continuarão a fazer, mas para se ter realmente sucesso, como QB scrambler, é necessário ter-se ambas as valências, saber passar a bola e conseguir correr com ela. A unidimensionalidade no ataque, na NFL, tende a ser rapidamente igualada e ultrapassada pela defesa.

Com isto, não quero dizer que sou contra o Tebow, ou contra o esquema que ele opera no ataque dos Broncos, aliás dou um grande mérito a John Fox de ter sabido adaptar o Playbook de ataque dos Broncos ao QB que tem, aliás é assim que deve ser, por muito boas que um treinador julge que são as suas jogadas no papel, eles não irão valer de nada, se não tiverem em conta as qualidades dos jogadores que as irão executar.

Em suma acho que o Tebow tem o mérito de ter galvanizado a equipa e de a ter motivado (algo que Kyle Orton não foi capaz de fazer, mas isso tem a ver com a personalidade de cada um, não tem nada a ver com o tipo de QB que cada um é), mas penso que o seu tempo chegará em breve ao fim, talvez esta semana, talvez para a próxima, talvez nos playoffs, talvez na próxima época, quem sabe?

Porquê? Porque mais cedo ou mais tarde será fácil desmontar este esquema de ataque dirigido por Tim Tebow e nessa altura a única chave para o sucesso será aliar a este esquema o jogo em passe, e se Tim Tebow não o sabe fazer, não é na NFL que o vai aprender! Nem no college onde as defesas são mais fracas, Tebow era capaz de vencer graças à sua qualidade de passe, mas sim graças às suas corridas, daí ele ter vencido o Heisman Trophy e ter batido o recorde de TD’s em corrida por um QB da University of Florida.

Na NFL pode-se aprender a ler defesas, não se aprende a passar a bola, disso podem ter a certeza!

P.S.: Este artigo não surge no seguimento do artigo do Ricardo, é apenas um tema que está na actualidade da NFL, e que como tal tanto o Ricardo como eu decidimos abordar, cada um com o seu ângulo e cada um com a sua opinião. Não se trata de um ataque combinado anti-Tebow! 😉

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2 comments on “Desmistificar Tim Tebow

  1. Por falar em números, uma estatistica que ficou por apresentar no artigo foi esta: em 80 posses de bola com Tebow, os Broncos fizeram punt em 56% das vezes. Algo preocupante para quem quer tentar manter o ataque em campo, ou em jogos contra equipas com defesas disciplinadas ou com ataques que marcam muitos pontos.

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